Compartilhar
Algumas medidas que têm como objetivo a “proteção” do pedestre na verdade desincentivam esse modal e o torna mais hostil no município.
Por Roberta Inglês – via Caos Planejado
Em 2024, diante de um alto número de mortes por atropelamento, o Governo do Distrito Federal tomou uma decisão: instalar gradis nos canteiros de algumas das principais vias da cidade para “reforçar a segurança do pedestre”. Segundo Mozer Teixeira de Castro, engenheiro do DER (Departamento de Estradas de Rodagem), “essa instalação de gradis tem uma função social de disciplinar o pedestre”.
A medida “educativa” serviria para orientar o pedestre para a utilização das passarelas, impedindo as travessias clandestinas, que colocam a vida dele e de terceiros em risco, como explica o engenheiro. A – aparentemente boa – intenção de proteger o pedestre “rebelde” na verdade demonstra uma visão de mobilidade que definitivamente não o valoriza. O problema é que esse tipo de medida torna o caminhar a pé cada dia mais hostil. Enquanto isso, os gestores urbanos deveriam estar mais preocupados em investigar por que exatamente os pedestres estão preferindo atravessar na via ao invés de usar a passarela, e como seria viável atendê-los de um modo mais confortável e efetivo.
Imagem: Propaganda – Gradis instalados em uma via do Distrito Federal. Foto Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília.
O problema das travessias clandestinas se assemelha ao que chamamos em Brasília de “caminhos de rato”. São caminhos descontraídos que ficam marcados em regiões gramadas, compostos espontaneamente por pedestres que atravessam por ali. Como no caso das travessias perigosas, nos “caminhos de rato” o pedestre dá um jeito de fazer o que é necessário para ele de um modo mais confortável, mais rápida ou mais efetivo. E, da mesma forma, ele utiliza meios descontraídos para fazer isso.
Imagem: Propaganda – Exemplo de “caminho de rato” na Asa Norte, em Brasília. Foto Google Street View.
O que a existência de fenômenos como “caminhos de rato” e travessias clandestinas significam, afinal?
1) Que existe uma demanda que a infraestrutura formal não fica atendendo;
2) Que essa demanda é considerável, porque se apenas 1, 2 ou 10 pessoas passassem por aquele caminho gramado, ele não estaria tão visivelmente programado. Ou no outro caso, o governo não investiria mais de 3 milhões de reais em gradis se a quantidade de pessoas que já atravessaram a via fosse ínfima;
3) Que o projeto daquele espaço falhou em deixar de conectar os locais da forma como os pedestres precisam.
Em relação a esse terceiro ponto, o projeto da cidade de Brasília como um todo é muito ilustrativo, apesar do problema ser comum a todas as grandes cidades brasileiras. Existe falta de conexão para pedestres – e ciclistas, diga-se de passagem – porque o planejamento foi fortemente voltado ao automóvel particular como modal principal. Isso se torna um problema ainda maior quando pensamos no conceito da “última milha”, que é “o trajeto entre a origem ou o destino à parada de ônibus ou à estação de metrô”, geralmente feito a pé. Ou seja, o caminhar a pé é uma parte essencial dos deslocamentos diários de quem utiliza majoritariamente o transporte público também. Por isso, negligenciar o pedestre é grave e afeta a qualidade de vida de milhares de pessoas.
Investigando os motivos da informalidade
Em vários casos, não é difícil reconhecer os motivos pelos quais os pedestres optam por comportamentos alternativos. Se olharmos, por exemplo, para o emblemático caso do “Eixão”, uma das principais vias de Brasília, já é de conhecimento geral que as travessias subterrâneas – a única opção formal para o pedestre – são escuras e perigosas. Assim, os pedestres se veem divididos entre o medo do atropelamento (se optarem por atravessar por cima) e o medo de assaltos (se optarem por atravessar por baixo). Como já dizia a música de 1997 do Legião Urbana: “Nossa Senhora do Cerrado, protetora dos pedestres que atravessam o eixão às seis horas da tarde, fazei com que eu chegue são e salvo na casa da Noélia”.
O padrão de escolha dos pedestres, neste caso, ficou evidente na pesquisa realizada em 2023 através do IPEDF (Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal):
Imagens: Propaganda – Gráficos / Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal.
Continuando a análise das escolhas dos pedestres através da informalidade, vejamos agora um caso de “caminho de rato” na Asa Norte, em Brasília. O espaço é um terreno vazio entre uma área institucional (onde fica a Universidade de Brasília) e uma área residencial e comercial. Por isso, é um espaço de “transição” onde muitos circulam a pé, nem que seja para ir até a parada de ônibus mais adequada.
Imagem: Propaganda – Foto Google Earth.
O “caminho de rato” começa justamente numa faixa de pedestres e chega até uma parada de ônibus. Coincidência? Através do contrário, as pessoas estão deixando muito claro, através da informalidade, como o caminho delas poderia ser mais rápido e efetivo. A melhor opção de trajeto formal que elas poderiam fazer tem o dobro da distância do “caminho de rato”.
Imagem: Propaganda – Foto Google Earth, com edições próprias.
Voltando ao caso dos gradis mencionados no começo, foram feitas instalações no Pistão Sul, uma das principais ruas de Taguatinga, que é o espaço de transição entre uma área residencial e a principal área comercial do bairro. No decorrer de um segmento de mais de 600 metros onde os gradis foram instalados, existe somente uma passarela. Isso sem considerar que a travessia por ela é muito mais lenta, já que exige a utilização das longas rampas. Será que é mesmo difícil compreender por que tantas pessoas optam através da travessia clandestina neste caso?
Imagem: Propaganda – Pistão Sul com indicação do segmento de gradis mencionado e do local da passarela. Foto Google Earth, com edições próprias.
Como alternativa às passarelas, a matéria do Mobilize Brasil sugere, por exemplo: uma redução nas velocidades e instalação de semáforos de pedestres; um rebaixamento do tráfego motorizado para permitir a travessia de pedestres em nível; ou um redesenho das passarelas para impedir os ziguezagues.
Gestores urbanos precisam compreender que a informalidade das ações dos pedestres não são ao acaso e sempre carregam consigo um significado. Significado que, na grande parte dos casos, é fácil de desvendar, desde que haja um olhar atento ou simplesmente perguntem às pessoas. Ao mesmo tempo que não poupamos dinheiro, tempo e energia tentando melhorar o trânsito de carros, continuamos desconsiderando que as pessoas que andam a pé também querem conforto, rapidez e eficiência para que possam se deslocar com facilidade e ter mais tempo para suas outras atividades cotidianas.
Imagens: Propaganda – Foto abertura Geovana Albuquerque/Agência Brasília.
Mais em: Caos Planejado
Com informações de Revista Campinas


