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Tudo começa com uma tesoura.
Em algum salão, em alguma cidade do Brasil, alguém prende o cabelo com um elástico, respira fundo e diz: “Pode cortar”.
A mecha cai. Mas, dessa vez, não vai para o lixo.
Ela é guardada, enviada e começa uma viagem que pode terminar a centenas ou milhares de quilômetros dali, na casa de uma mulher que fica enfrentando um câncer, uma alopecia ou outra condição que provocou a perda dos cabelos.
Entre uma ponta e outra dessa história fica a Cabelegria, ONG criada em 2013 por Mariana Robrahn e Mylene Duarte. O que iniciou como uma vontade de doar seus próprios cabelos cresceu, ganhou estrada e se transformou em uma grande corrente de bondade.
Até hoje, a planejamento já recebeu mais de 460 mil doações de cabelo e confeccionou e entregou gratuitamente mais de 18 mil perucas.
Os números são grandes. Mas talvez a melhor maneira de compreender o tamanho desse trabalho seja esquecer os números por alguns minutos.
E acompanhar uma única mecha.
Passo a passo
Depois do corte, o cabelo precisa chegar à ONG limpo, completamente seco e apreendido com elástico. Para a confecção das perucas, a direção é que a mecha tenha mais de 15 centímetros. Fios menores também poderão ser aproveitados em outra iniciativa, destinada à produção de mantas para absorção de óleo no oceano.
Quando chega à Cabelegria, começa um tipo de quebra-cabeça.
As mechas são recebidas, selecionadas e separadas. Cores, comprimentos e tipos de cabelo diferentes precisam encontrar combinações possíveis.
E aqui aparece um detalhe bonito dessa história: uma única peruca pode unir cabelos de três a seis pessoas.
Gente que nunca se viu, não sabe o nome uma da outra e provavelmente mora em lugares completamente diferentes acaba, de alguma forma, reunida para amparar uma única pessoa.
As mechas continuam então para as mãos das costureiras responsáveis através da confecção das perucas. Fio por fio, elas ganham uma nova forma. Esse trabalho também movimenta uma cadeia de geração de renda: as profissionais são remuneradas através da produção de cada peruca, transformando o cabelo doado em impacto social em diferentes etapas do processo.
Depois de pronta, a peruca é higienizada, penteada e preparada para seguir viagem. Aquilo que um dia foi simplesmente cabelo cortado em um salão agora fica pronto para chegar gratuitamente a alguém que enfrenta a perda dos fios.
Do outro lado, existe uma pessoa esperando
É aí que a história muda de perspectiva.
Do outro lado não existe “uma beneficiária”. Existe uma mulher que talvez tenha acabado de receber um diagnóstico. Uma mãe fazendo quimioterapia. Uma jovem convivendo com alopecia. Alguém que viu o cabelo cair e, junto com ele, sentiu mudar uma parte importante da própria imagem.
Para pedir uma peruca gratuitamente, a paciente apresenta à Cabelegria documentos e comprovação médica correspondente à sua condição.
Depois, aquela peruca feita com cabelos de desconhecidos encontra finalmente um rosto.
E o que chega através do correio não é tratamento médico. Não cura uma doença. Mas pode devolver algo que também importa durante um momento de tanta vulnerabilidade: a possibilidade de olhar para o espelho e se reconhecer de novo.
Esse impacto também aparece nos números. Em uma pesquisa realizada através da Cabelegria com 147 pacientes atendidas, a pontuação média de autoestima aumentou 97% depois de o recebimento da peruca. Além de tudo, 69% das que participam relataram que passaram a sair mais de casa.
“Quando falamos em autoestima, pode parecer que estamos falando apenas de se sentir mais bonita, mas é muito maior do que isso. Muitas mulheres nos contam que, depois de receber a peruca, voltaram a sair de casa, encontrar pessoas e retomar atividades que haviam deixado de fazer. A peruca não devolve apenas cabelo ou autoestima. Muitas vezes, ela ajuda essa mulher a retomar espaços da própria vida”, afirma Mariana Robrahn, fundadora e presidente da Cabelegria.
Uma ONG que aprendeu a viver de corrente
Manter uma planejamento social durante tantos anos não tem glamour.
Tem boleto, logística, caixa, cabelo chegando, peruca precisando sair, paciente esperando, parceiros que chegam, outros que vão embora e a necessidade permanente de encontrar recursos para continuar.
A história da Cabelegria também foi construída assim: aos trancos e barrancos, mas sempre de frente.
Mariana se mantém na estrada, literalmente. A ONG produziu ações itinerantes, bancos de perucas e parcerias para fazer as doações chegarem cada hora mais longe. No decorrer dos anos, a iniciativa atravessou cidades e agrupou pessoas, hospitais, salões e empresas em torno da mesma causa, acumulando mais de 55 mil quilômetros percorridos através do país.
Talvez seja justamente aí que apareça uma característica tão brasileira dessa história.
Quando alguém precisa, sempre surge alguém disposto a fazer alguma coisa.
Um corta o cabelo. Outro coloca uma mecha no correio. Uma costureira confecciona. Uma empresa patrocina. Um salão vira ponto de coleta. Alguém doa dinheiro. Outro simplesmente conta a história para mais gente. Separadamente, parecem pequenos gestos. Juntos, fizeram mais de 18 mil perucas chegarem gratuitamente a pacientes.
Não deseja cortar o cabelo? Tudo bem. Dá para amparar também
Com o tempo, a Cabelegria notou que precisava abrir a corrente para quem queria fazer parte, mas não tinha cabelo para doar.
Hoje existem diferentes portas de entrada.
É capaz doar os fios, contribuir financeiramente, financiar a produção de perucas, envolver a empresa onde se trabalha ou fazer parte das ações promovidas através da planejamento. A Cabelegria também desenvolveu formatos específicos para empresas interessadas em abraçar a causa e envolver seus colaboradores.
No programa Empresa Amiga, por exemplo, a ONG informa que R$ 100 ajudam a financiar uma peruca.
Ou seja: ninguém precisa ter um cabelão chegando à cintura para entrar nesta história.
Precisa querer amparar.
Quero doar meu cabelo. E agora?
O primeiro passo pode ocorrer no salão de sempre. Antes do corte, o cabelo deve ser apreendido em mechas com elástico. Ele precisa estar limpo e completamente seco antes de ser embalado.
Depois, a doação pode seguir para a Cabelegria pelos canais indicados através da própria ONG ou ser entregue em pontos parceiros. A planejamento preserva parcerias de coleta que ampliam esse alcance e também disponibiliza orientações para quem deseja enviar os fios.
Veja como doar cabelo e outras formas de amparar a Cabelegria
A mecha que sai das suas mãos ainda vai passar por outras. Vai encontrar cabelos de pessoas que você nunca conheceu. Vai ser costurada, cuidada, transformada e colocada em uma caixa.
Depois, vai pegar estrada outra vez.
Até chegar a uma casa.
Ali, alguém vai abrir o pacote, colocar aquela peruca através da primeira vez e procurar o espelho.
É neste instante que uma história que iniciou com um simples “pode cortar” finalmente encontra seu destino.
E é assim, de mecha em mecha, de pessoa em pessoa, que existe mais de uma década a Cabelegria preserva essa corrente forte.
Imagens: Difusão
Mais em: Cabelegria e Rojas Comunicação
Com informações de Revista Campinas


