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Perda súbita de consciência pode ter causas benignas, mas episódios durante esforço, sem sintomas prévios ou auxiliados de palpitações e dor no peito exigem atenção.
Desmaiar pode parecer um episódio separado e sem maiores consequências, em particular quando a pessoa recupera a consciência de forma rápida. Mas a perda súbita de consciência nem sempre deve ser encarada como algo banal. Em alguns casos, o desmaio, chamado de síncope quando ocorre por uma redução temporária do fluxo sanguíneo para o cérebro, pode ser o primeiro sinal de uma modificação cardiovascular, como uma arritmia ou outro problema estrutural do coração.
De acordo com o Dr. Cristiano Faria Pisani, cardiologista, especialista em eletrofisiologia e Presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC), o contexto em que o desmaio realiza-se é fundamental para avaliar o risco.
“O desmaio não deve ser analisado apenas pelo fato de a pessoa ter perdido a consciência. É preciso entender o que estava acontecendo antes do episódio, se havia algum sintoma associado e como foi a recuperação. Essas informações ajudam a diferenciar situações mais comuns e benignas de episódios que podem estar relacionados a alterações cardíacas”, explica o especialista.
Um estudo postado no mês de março de 2026 no periódico BMC Emergency Medicine acompanhou 400 adultos atendidos em um pronto-socorro depois de episódios de síncope. Os pesquisadores reconheceram achados cardíacos em 23,3% dos pacientes durante de 24 horas de observação. O levantamento exibiu ainda que 70,9% desses achados foram reconhecidos nas primeiras 12 horas, reforçando a necessidade da avaliação inicial e da observação de pacientes que apresentam características de maior risco.
O mesmo estudo apontou que um eletrocardiograma anormal esteve fortemente associado à síncope de origem cardíaca. A presença de alterações no exame aumentou em quase sete vezes a oportunidade de o episódio estar relacionado a uma causa cardíaca.
Nem todo desmaio é igual
O desmaio é uma situação relativamente comum nos serviços de emergência. Por volta de 40% a 50% dos casos estão relacionados à chamada síncope vasovagal, que pode ocorrer diante de situações como calor, dor, medo ou estresse. Já a queda da pressão arterial ao se levantar, conhecida como hipotensão ortostática, responde por aproximadamente 20% a 30% dos episódios, principalmente entre pessoas mais velhas.
Apesar disso, alguns episódios podem estar relacionados ao coração e precisam de atenção. Alterações nos batimentos cardíacos e outros problemas cardiovasculares podem provocar a perda de consciência e, nesses casos, o desmaio pode ser um sinal de alerta.
“As arritmias podem fazer o coração bater muito rápido, muito devagar ou de maneira irregular. Dependendo da intensidade e da duração dessa alteração, o coração pode não conseguir manter um fluxo adequado de sangue para o cérebro, levando à perda de consciência”, explica o Dr.Pisani.
Por isso, mais do que saber exclusivamente que uma pessoa desmaiou, é importante compreender o que ela estava fazendo antes, se apresentou algum sintoma e como se recuperou depois.
Quais características acendem o sinal de alerta?
Um dos principais pontos observados pelos médicos é o contexto em que ocorre o episódio. Desmaios durante atividade física ou esforço, por exemplo, merecem atenção especial. O mesmo vale para situações em que a pessoa perde a consciência sem apresentar indicativos prévios, como tontura, sensação de calor, náusea ou visão escurecida.
“Quando o desmaio acontece durante o exercício, especialmente sem nenhum sintoma de alerta, precisamos investigar com mais cuidado. Esse tipo de episódio pode estar associado a alterações do ritmo cardíaco ou a problemas estruturais do coração”, alerta o cardiologista.
Também são considerados indicativos de alerta episódios auxiliados de palpitações, dor no peito ou falta de ar, assim como desmaios em pessoas com histórico conhecido de doença cardíaca ou com familiares que tiveram morte súbita. O acontecimento repetida de síncope também deve motivar investigação.
Outro momento importante é a posição em que a pessoa estava no momento do episódio. Um desmaio que ocorre durante o esforço ou quando o pessoa fica deitado pode ter características diferentes de uma síncope vasovagal típica, que costuma ocorrer em situações como permanecer muito tempo em pé, calor intenso, dor, medo ou estresse emocional.
“Um desmaio enquanto a pessoa está deitada, por exemplo, chama a atenção porque foge do padrão mais típico da síncope vasovagal. Da mesma forma, episódios recorrentes ou associados a palpitações precisam ser avaliados para descartar uma causa cardíaca”, afirma o Dr. Pisani.
O que fazer depois de um desmaio?
A recuperação rápida não significa necessariamente que a causa seja conhecida. Quando ocorre um primeiro episódio sem explicação clara, principalmente se existir algum fator de risco cardiovascular, é importante procurar avaliação médica.
A investigação começa com uma história detalhada do episódio: o que a pessoa estava fazendo antes de desmaiar, se apresentou sintomas prévios, quanto tempo permaneceu inconsciente, como foi a recuperação e se houve outros episódios. A avaliação poderá também incluir a medição da pressão arterial, inclusive em diferentes posições, exame físico e eletrocardiograma.
“O eletrocardiograma é um exame simples, rápido e muito importante na avaliação inicial. Ele pode trazer pistas de alterações elétricas do coração que ajudam a direcionar a investigação”, explica o especialista.
Dependendo dos achados, o médico pode pedir exames complementares, como monitorização do ritmo cardíaco, ecocardiograma ou outros testes específicos. A avaliação deve trazer em conta o conjunto de informações clínicas e os fatores de risco de cada paciente para determinar a necessidade de observação, investigação complementar ou acompanhamento.
Entre pacientes classificados como de baixo risco, estudos indicam que a alta do pronto-socorro pode estar associada a uma baixa frequência de eventos adversos de curto período. A decisão, ainda assim, deve ser individualizada conforme com a avaliação médica.
Quando procurar atendimento imediatamente?
O desmaio exige atenção de emergência quando vem auxiliado de dor no peito, falta de ar, palpitações intensas, modificação neurológica, convulsões, trauma importante ou dificuldade para recuperar a consciência. Também merece avaliação rápida quando ocorre durante o exercício, sem qualquer sintoma de alerta ou em pessoas que já apresentam doença cardíaca.
“Se a pessoa desmaia e apresenta dor no peito, falta de ar, palpitações importantes ou demora para recuperar a consciência, não é recomendado simplesmente esperar passar. É preciso procurar atendimento para identificar a causa do episódio”, orienta o Dr. Pisani.
O principal cuidado, portanto, é não avaliar o desmaio exclusivamente através do fato de a pessoa ter acordado e se sentido bem depois. O que ocorreu antes da perda de consciência, em que situação ela ocorreu e como foi a recuperação são informações importantes para diferenciar um episódio de menor risco de uma provável manifestação de doença cardiovascular.
“Mesmo quando a pessoa se recupera rapidamente, o primeiro episódio de desmaio sem uma causa evidente merece atenção. O objetivo da avaliação não é alarmar o paciente, mas identificar aqueles casos em que existe um risco maior e que precisam de investigação”, conclui o cardiologista.
Imagens: Difusão – Foto abertura Brooke Balentine no Unsplash
Mais em: Dr. Cristiano Pisani e Rojas Comunicação
Com informações de Revista Campinas



