O projeto MARIAS, concebido através da historiadora, artista, produtora e arte-educadora Ori-Okan (Thaíse Pavani), coloca os temas da ancestralidade, da diversidade religiosa e da relação com diferentes gerações em foco durante seu desenvolvimento e realização em Campinas/SP. Já fica disponível um EP com músicas cantadas nas apresentações e também faixas inéditas, que pode ser conferido nas principais plataformas de streaming de música. É provável acompanhar através da página do instagram @ori.okan.
“MARIAS” é um projeto feito através do edital PNAB nº 07/2024 de fomento à cultura da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo da Prefeitura de Campinas.Iniciado no primeiro semestre de 2026, o projeto realizou no mês de maio 14 contações de história em sete escolas públicas da cidade, momentos no quais puderam oferecer aos alunos e alunas um contato maior com temáticas que por vezes ainda encontram barreiras na sociedade.
“A contação de história MARIAS é fruto de memórias e vivências minhas com a cultura de benzedeiras e rezadeiras do interior do Estado de São Paulo, mais especificamente de Marília, minha cidade natal”, relata Ori-Okan. “MARIAS busca valorizar, por meio da relação entre suas personagens, Maria Flor e Vó Maria, o compartilhamento de saberes entre as crianças e seus mais velhos, uma troca que vai além da criação de laços afetivos, culminando na preservação do conhecimento e da memória familiar”, complementa.
Além desta série de apresentações em escolas e do lançamento do EP com faixas inéditas, o projeto MARIAS também sugere a criação de uma cartilha sobre os temas abordados, que deve ser distribuída no segundo semestre nas escolas previamente visitadas, e ao público geral através de um site, e também com versão em audiobook nas plataformas de streaming.
EP MARIAS
Em “Ori-Okan canta MARIAS”, a artista costura as narrativas das canções do espetáculo a contar dos encontros com músicos que atravessaram e contribuíram para a construção do projeto, além de duas faixas inéditas que foram produzidas particularmente para este disco. Uma experiência musical performática, onde as canções ganham centralidade e se desdobram em narrativas próprias.
A contar dessas micro-histórias – vividas, compartilhadas e reinventadas – e das presenças das divindades que permeiam o universo do MARIAS (Iroko, Bessen e Ibeji), Ori-Okan também evoca as tradições afro-brasileiras, trazendo à cena as simbologias desses voduns como forças que atravessam a vida e orientam sua criação artística, provocando o público a perceber-se também em processo, onde as raízes negras de nossa terra se entrelaçam em memórias familiares e coletivas.
Os Voduns constituem o panteão sagrado da tradição religiosa Jeje, originária dos povos do atual Benin. Estas divindades representam as forças primordiais da natureza e os princípios espirituais que governam a existência humana e cósmica.
Fazem parte da concepção deste disco o produtor João Cabrino e o engenheiro de som Henrique Manchuria, além dos músicos Gabriel Peregrino, Vitor Rodrigues e Gabriel Modesto, as vozes de Ana Clara Ferraz e Renata Alves e participações especiais nos coros adulto e infantil. A arte da capa é assinada por Daniela Mancuso.
Referências musicais
Mesmo antes de pertencer a uma comunidade de terreiro, Ori-Okan já se encantava pelas cantigas e canções populares. Os versos que retornam, as palmas que acompanham, as melodias simples, mas carregadas da profundidade de um cotidiano bem vivido. “Quando entoadas, essas canções despertam alegria no peito e preenchem lugares dentro da gente que, aos olhos, nem sempre sabemos nomear”.
Ori-Okan relata que, ao se aproximar de sua ancestralidade, compreendeu que grande parte das referências musicais que a atravessavam vinham do catimbó e das encantarias do Norte e Nordeste do Brasil. “Admiro, respeito e vibro profundamente pelos trabalhos desenvolvidos por Ana Maria Carvalho, Alessandra Leão, o grupo A Barca e também o Ponto BR – estas são algumas das minhas maiores inspirações sonoras para as composições de MARIAS”, aponta.
Para além das referências, a artista acredita que todo processo artístico carrega uma mediunidade única. “É preciso escutar os sussurros dos nossos ancestrais: aqueles que guiam, protegem e ajudam a realizar sonhos. Nenhuma composição nasce sozinha. Jamais estou só na escrita ou no canto e, para mim, é justamente isso que torna o trabalho ainda mais belo”.
As Marias em cena
“As Marias em cena são os encontros das mulheres que vivem em mim, das que me criaram e seguem me criando em terra”, aponta Ori-Okan, que na contação de história divide palco com Doroti Martz e conta com participação especial de Fernando Basílio, sob direção artística de Aiyrá Ponãn.
Vó Maria, senhora rezadeira e rabugenta de tanto cansaço, é inspirada em sua avó, Maria da Conceição: mulher forte, daquelas que fazem de tudo por todos com afeto, mas que adoram uma reclamação, “e, claro, tudo do jeitinho dela”. Também inspiram a concepção desta personagem Dona Carmem e Seu Everaldo, benzedeiros que cuidaram da artista durante a infância.
Já Maria Flor, criança brincalhona, curiosa e expansiva, é o espelho que leva a artista de volta à própria infância. “Eu fui essa criança que encontrou na casa da avó não apenas um lugar seguro, mas um território de descobertas e imaginação. Brincar na área ‘bichorenta’, cercada por vasos de plantas, pequenos bichos e invenções, era uma das minhas maiores felicidades”.
Depois de atravessar um bocado da vida – suas decepções, cansaços e endurecimentos – a presença de Vó Maria passou a fazer cada hora mais sentido em sua vida, até que a ancestralidade a presenteou com uma irmã. “Hoje, tenho o privilégio não apenas de contar a história de MARIAS pelo caminho, mas de vivê-la cotidianamente na relação com a minha própria Maria Flor: Eloah. Estar com Lolo é ser lembrada, todos os dias, de que recomeços são possíveis – como numa brincadeira de faz de conta”.
Com informações de RMC Urgente



